Por um digital mais sustentável

Falar da geração Y, do marketing digital, das redes sociais, da realidade aumentada, dos novos gadgets que aparecem dia após dia virou lugar comum em qualquer discussão sobre o futuro da sociedade interconectada. Bem montado e embalado para presente, este discurso surge em uníssono por expoentes do assunto em eventos do mundo digital. E pode ser encontrado em diversas apresentações, ppts e artigos espalhados pela rede.

Sempre desconfio desta voz orquestrada em que o argumento é ao mesmo tempo otimista e catastrofista conclamando as pessoas a se renderem às maravilhas do digital ou então se relegarem ao ostracismo. Um olhar mais cuidadoso percebe que por trás desta conversa existe uma urgência e uma necessidade de crescimento que vai além da realidade que o digital é capaz de proporcionar.

Uma das raras pessoas do meio com audácia para olhar criticamente este assunto é René de Paula, um dos precursores da internet no Brasil e criador da famosa lista de discussão “Radinho”. Ele palestrou na Feira do Empreendedor em São Paulo, na palestra “Provocações sobre o mercado digital” e já começou questionando sobre o que realmente é concreto e o que é fantasioso na web. “Vender o unicórnio, o mito, é mais fácil do que trabalhar com a realidade”, disse René. Para ele, vivemos a geração BR e não a XYZ cercada por cases de sucesso que desaparecem em pouco tempo sem resultados efetivos para as empresas. E pergunta: “O que é realmente revolucionário? O iPad de poucos ou a imensa maioria de novos consumidores que compram milhares de computadores a prestação e não sabem como usar as ferramentas na web?”

O fosso entre o que as empresas realmente precisam e o mercado oferece é um desafio e uma oportunidade para quem estiver disposto a entender o ecossistema, redesenhar as estratégias de relacionamento e investir num modelo diferente do que é oferecido hoje. “O digital é fundamental, mas não se pode perder o senso de realidade, responsabilidade e sustentabilidade”, disse René na palestra.

Perfeito! Será que não está na hora de pensarmos – usuários, fornecedores e clientes – o digital de forma mais sustentável, em que o foco e a utilidade sobreponham o excesso desnecessário de ações na rede que estão lá apenas para provocar ruído?

Para ler:
- René de Paula Jr: O chapéu da Carmen Miranda

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