Feb 26

Felicidade sintética

dan_harvardQuando comecei a escrever este blog me propus a falar também de fatores que levam à inovação: o empreendedorismo e a tecnologia. Mas nestes meses de estudo e pesquisa,  percebo que a inovação está muito mais intimamente ligada à motivação humana do que qualquer outra coisa. Ao questionar e refletir sobre nossa condição, somos capazes de vislumbrar mudanças e evoluir num ritmo mais veloz do que qualquer tecnologia.

Por isso,  me vi, ao longo deste tempo, escrevendo posts mais reflexivos, que extrapolavam os limites da inovação que imaginava tratar. Um deles é esse, que inaugura uma nova seção no blog, chamada Inspiração.  Assim, paro de pensar que estou desviando o foco deste espaço e aprofundo mais no que acredito ser a base de toda inovação: o ser humano.

Este post surgiu de uma das centenas de palestras disponíveis do TED. O evento norte-americano que já teve sua versão brasileira no ano passado é um repositório de idéias inspiradas. Profissionais das mais diversas áreas nos incitam a pensar, compartilhar e inovar na forma de agir e ser. Uma delas, a do psicólogo Dan Gilbert, de Harvard, fala sobre a felicidade sintética. O que ele define como sistema imunológico psicológico nada mais é do que a capacidade do ser humano de criar felicidade a partir do que não tem.

Com experimentos interessantíssimos e uma base científica certificada por uma das universidades mais prestigiadas do mundo, Gilbert explica que podemos produzir felicidade a partir de condições adversas, como perder tudo nos negócios, sofrer um acidente ou passar por uma desilusão amorosa. Segundo ele, ao superestimar a diferença entre os resultados das nossas escolhas, nos afastamos cada vez mais de uma felicidade verdadeiramente real e durável, encontrada somente dentro de cada um de nós.

É interessante imaginar que somos mini-fábricas de felicidade quando o mundo nos apresenta exatamente o contrário: o paraíso externo e inatingível. E no mínimo polêmico pensar que a liberdade de escolher nos acarreta uma angústia nociva quando queremos ser apenas felizes. Um vídeo altamente recomendável para assistir e pensar.

Feb 19

A inovação vem do futuro

nascer_solFuturo. Palavrinha difícil de controlar, de imaginar, de prever. Não quero retomar ao que já se falou ou conjecturou sobre o que nos espera lá na frente. Quero, ao contrário, refletir sobre o assunto com uma perspectiva diferente: o futuro visto como hoje. Sem amanhã, nem ontem. O futuro que surge da nossa imaginação, sem escalas, nem amarras com o presente.

Li uma entrevista interessante da empresária Béia de Carvalho que criou o workshop “Five Years From Now”. A proposta é simples: sonhar, planejar e realizar. Nesta ordem. Para ela, de nada adianta focar toda nossa energia no dia de hoje se é no futuro que as coisas podem ser modificadas. São os sonhos que guardam os desejos latentes, as idéias inovadoras e os projetos empreendedores. A partir daí, focar, priorizar e descartar o que não nos serve faz parte apenas do planejamento do que já foi traçado.

Imaginar o futuro hoje é um exercício complicado; sonhar, então, nem se fala. Mas para quem busca empreender um novo caminho, este é um passo necessário. Só um futuro concretizado primeiro na mente é capaz de ser trilhado na realidade presente, cheia de percalços e imprevistos. Na imaginação, o futuro é mais real e as pedras são apenas detalhes de um caminho que já tem seu destino certo.

Para saber mais:
A entrevista com Béia de Carvalho

Feb 12

A realidade aumentada de Manoel de Barros

O que a tecnologia tem a ver com a poesia

manoel_barros_realidade_aumentada

Há  pouco tempo, escrevi uma matéria sobre Realidade Aumentada, a tecnologia que vem ganhando espaço no dia a dia das pessoas. Já encontramos exemplos dela na medicina, na arquitetura e em inúmeras ações publicitárias. Em sua definição básica, a Realidade Aumentada nada mais é do que a união de elementos virtuais e reais em uma mesma cena. Com ela, o digital não só ganha forma, como possibilidade de interação com o mundo físico. Você pode, por exemplo, entrar em um apartamento antes mesmo dele ser construído, apenas com a imagem da planta. Ou ainda, para apresentar uma aplicação educativa, simular experimentos físicos ou químicos em laboratório sem correr o risco de manipular instrumentos reais.

Com o avanço e a popularização da Realidade Aumentada ainda veremos muitas aplicações interessantes, mas o que mais me intrigou nesta pesquisa, na verdade, foi o nome dado à tecnologia. Realidade Aumentada: ou o mundo experimentado além do real. Isso amplia nossa percepção das coisas e  também nossos sentidos. Afinal, nem tudo é como vemos. Por trás do palpável, podemos encontrar informações, interações e até sensações.

O recurso de extrapolar o real nos remete a algo muito antigo e até familiar: a poesia. Ao assistir recentemente o documentário “Só Dez por Cento é Mentira” sobre o poeta mato-grossense Manoel de Barros, confirmei o quanto sua percepção de mundo vai além do que podemos ver e tocar. Para ele, só o que a imaginação inventa é real. E com uma poesia simples e cativante nos transporta para um mundo lúdico, imperceptível na dureza cotidiana.

“As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis”, diz Manoel de Barros. Daí concluo:  os artistas não só já conhecem, como praticam a Realidade Aumentada. O que para nós são simples objetos, para eles é um mundo amplificado, escancarado em uma paisagem nada monótona. No contato com a música, a poesia e a arte, informações e sensações são encontradas onde menos se espera e com uma riqueza de detalhes que a realidade não consegue representar.

Ao que me parece, a tecnologia que chega agora tem a mesma pretensão de tentar trazer à tona um sentimento incessantemente buscado pelo ser humano: o de ampliar a realidade em que vive. No suporte de chips e bytes, a Realidade Aumentada tem o papel de nos mostrar um mundo além do real, o que, com certeza, torna tudo bem mais interessante.

Para saber mais:

- Realidade Aumentada: um novo mundo à disposição

- A desbiografia poética de Manoel de Barros

- Só Dez por Cento é Mentira (site oficial)

Feb 09

Quer inovar? Entre na era da colaboração

onda_perfeitaA inovação só existe quando de fato acontece. A frase, óbvia, merece um pouco mais de cuidado ao ser analisada. Definida de diferentes formas pelos especialistas, a inovação – este novo mantra mundial – tem um ponto de consenso: ela introduz algo novo, muda o panorama e refaz a forma de pensar e agir das pessoas, empresas e governos.

Quando surge, a inovação traz consigo a concretização de uma tendência que já está em curso. É como aquele movimento das águas que antecede a onda. Isto explica porque alguns produtos inovadores, apesar de geniais, não são aceitos em determinados períodos. Quando a sociedade não está preparada para a onda, a inovação simplesmente não acontece e, por isso, não existe. Apesar de estar lá, em algum lugar.

A inovação que veio com os computadores pessoais nada mais foi do que a concretização da era do conhecimento, em que o mundo gerava e consumia cada vez mais informação e precisava disseminá-la num cenário globalizado.

Hoje, a inovação surge na era da colaboração. Numa época em que a informação de fácil acesso, mas fragmentada perde o valor, e a troca e o compartilhamento assumem a dianteira. Ao associar diferentes fontes de conhecimento, vindos de lugares e pessoas das mais diversas e improváveis, cria-se uma força extraordinária capaz de realmente apresentar algo novo.

São os processos compartilhados, a inovação aberta (open innovation), a colaboração em rede que ditam as novas faces da inovação. O paradigma mudou. A grande sacada agora é usar o talento pessoal para estimular o conhecimento coletivo, este sim transformador e catalisador da inovação tão perseguida.

Feb 02

Ser imprevisível e inovador

crianca_ponta_cabecaAs regras estão por todo lado. Na família, na escola, no trabalho, no convívio social. Nos negócios e no lazer. Não importa. Elas estão aí e existem para nos orientar. Nos dão segurança e até um certo alívio por não ter de pensar diferente a cada nova situação. Basta reconhecer o padrão e fazer a simples escolha de seguir ou não a regra estabelecida.

Quando nos permitimos decidir apenas entre obedecer ou transgredir, estabelecemos o caminho. Isso nos dá até um certo grau de liberdade, mas bem pouco.

Quem convive com crianças sabe que as coisas não são bem assim. Elas não conhecem parâmetros, não fazem comparações com situações vividas. Não escolhem apenas entre o sim e o não, o preto ou o branco. Um dia, são seres cordatos. Em outros, mudam de ideia sem a mínima coerência. São imprevisíveis e, por isso mesmo, inovadoras! Característica não tão apreciada que a educação formal faz questão de corrigir na busca de um mesmo ideal: o ser previsível, que não foge da regra nem mesmo quando sai do padrão.

Para quem busca inovação, criar um ambiente criativo é um desafio e tanto. Saber que a regra não é um muro intransponível faz com que os indivíduos superem suas próprias expectativas. Aí sim a noção de liberdade deixa a equação binária e assume matizes surpreendentes.

É claro que isso precisa vir com uma bela dose de responsabilidade acompanhada de princípios como respeito, tolerância, compreensão. Ética que deveria ser ensinada em outra linguagem e não a de padrões estabelecidos. Será que o ser humano está preparado para isso?